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Saúde Mental: O cuidado de si é um ato político!














Quando recebi a missão de ser responsável pelos conteúdos sobre saúde mental da Revista Negrafite senti-me lisonjeada. Como Psicóloga que construí um projeto que hoje atende pretos espalhados pelo mundo (Américas, Europa, EUA), e fazendo uma clínica especializada no atendimento a pessoas pretas, compreendo bem as especificidades da saúde mental e psique desses sujeitos. Ao mesmo tempo, pensei: nossa, que responsabilidade! Embora eu tenha muito a dizer sobre o tema, sempre acho que está óbvio demais. Mas, ainda assim espero poder colaborar de forma positiva e agregadora para a vida das pessoas que terão acesso aos meus escritos. Entendo, de cadeira, que um preto é um preto em qualquer lugar do mundo. Quando se trata de pensar sobre a saúde mental de pessoas negras, precisamos refletir sobre o contexto sócio-histórico ao qual fomos e estamos inseridos. Como mulher negra e psicóloga (nessa ordem, pois a minha cor chega primeiro) compreendo bem os rótulos que meu corpo preto carrega. Essa máxima pode ser considerada universal, pois o corpo negro carrega em si signos, significados e significantes que o coloca em lugares e em situações que promovem o adoecimento psíquico. A constituição da nossa psique é atravessada pela cor de pele que carregamos. Nesse caso, envolve a todos, independentemente do grupo racial ao qual o indivíduo pertence, pois, os caminhos serão direcionados e o softpower (códigos, signos, rótulos etc) perpassa pela tonalidade da nossa pele e as ideias pré-estabelecidas pertencem ao background social brasileiro. Parafraseando Frantz Fanon, somos sobre determinados de fora e isso impactará diretamente na constituição do quem somos, no reconhecimento de nossas capacidades e de nossas habilidades, levando-nos ao sentimento de menos valia e ao sofrimento psíquico.





Nascer negro é nascer condenado a muitas coisas, mas é também nascer condenado a se cuidar e é sobre isso que precisamos falar. O cuidado de si é a maior arma para o enfrentamento do racismo sistêmico que insiste em nos dizer quem somos e como devemos viver ou, até mesmo, morrer. Em nosso caso, enquanto corpos pretos, o cuidado de si é um ato político. Diante da porosidade do racismo brasileiro que adoece, silenciosamente, e despotencializa a nossa capacidade de existência, precisamos nos cuidar. E nos cuidar de todas as formas: fisicamente, pois precisamos de um corpo potente, com força suficiente para ficar de pé diante de tantas atrocidades e violações a nossos corpos direcionados; psiquicamente, conhecendo e reconhecendo nossa história com suas forças e fragilidades, criando recursos internos; espiritualmente, pois há forças maiores que desconhecemos e mergulhar na espiritualidade nos fortalecerá em um ponto que nos é cego, porém muito vivo em nós e em nossos ancestrais (lembrando que espiritualidade e religião são coisas distintas) e, emocionalmente, identificando e nomeando as nossas emoções, são elas que irão direcionar os nossos comportamentos (estes, por sua vez, também precisam estar em consonância com os nossos desejos e com as nossas vontades). Aliás, você sabe o que você quer? Para aonde está indo? Quais são seus projetos de vida? Tem um plano e um planejamento? Pois bem, responder a essas perguntas também nos auxilia a direcionar nossas energias ao que de fato importa, indo ao encontro do autodesenvolvimento. Isso também é promotor de saúde mental!






Talvez, nos sintamos pressionados, com medo e com dificuldade de nos desprender das ‘amarras invisíveis’ impostas há pelo menos 400 anos. Essas ‘amarras’ trazem informações sobre nós que, na maioria das vezes, não são nossas. Logo, não temos o compromisso de cuidar delas. Entender isso e se desvencilhar é trabalho! Exigirá de nós tempo, dedicação, paciência e fôlego. Olhar para os “monstros internos” que nos colocaram e encontrar os nossos próprios (aqueles que criamos) é doloroso, difícil e assustador, contraditoriamente, é também libertador. É dessa liberdade que se trata, é em busca dela que devemos fazer o mergulho em nós mesmos, nos permitir abraçar nossos monstros e libertá-los. É um duplo movimento, pois ao libertá-los, nós também nos libertamos. Isso só é possível internamente, pois o mundo externo está pronto para nos devolver até mesmo os monstros que não nos pertencem. Saber reconhecer as cores e sabores do que somos, é trabalho. E muito! É desse trabalho duro, necessário e transformador que vos falo. Ele é interno, é intenso, é denso. Não há faxina sem esforço, sem cansaço e sem coragem. Precisamos de coragem para deixar de ser forte. Precisamos deixar as nossas vulnerabilidades emergirem e nos despirmos dessa força que nos foi imposta ‘goela abaixo’.





Podemos ser gente, humanamente estranha, cheia de medos e receios da vida, do mundo, do outro e de nós mesmos e, ao mesmo tempo sermos cheios de coragem, desejos, vontades e agirmos em direção a eles. Cuidar da saúde mental é buscar o equilíbrio nessas contradições, sem precisar ser a pessoa easy going ou a rabugenta o tempo todo, mas ser gente, que erra, mas que também acerta, que briga e xinga, mas que também usa a amorosidade no trato, enfim poder ser a pessoa que dança com as emoções boas e ruins e não ser aquela pessoa que é dominada pelos afetos, podendo conviver com as contradições advindas dessas emoções. Difícil né? Por isso eu disse, é trabalho! Nascer pretx em um mundo racista é, também, o mesmo que nascer condenado a viver nos extremos, ou é subserviente ou é raivoso. Enfim, são rótulos que nos foram ofertados, porém não somos obrigados a cultivá-los. Precisamos desapegar! Do mesmo modo que nosso corpo é político, cuidar de nossos afetos também o é. A promessa que devemos nos fazer é cuidarmos da parte que nos cabe (nós), para podermos cuidar melhor uns dos outros. E aí, está prontx? Então, vamos! Bom trabalho!





Claudina Damasceno Ozório


É psicóloga clínica; dentre muitas outras coisas, se descreve como uma mulher preta, daquelas “que reagem”, pois acredita que não há mudanças sem ações e sem provocar desconforto sistêmico. Tenciona nos espaços, utilizando a sua amorosidade para promover reflexões e mudanças reais. Para ela, não se constrói consciência com discurso e sim com ações, por isso age enquanto discursa. Doutoranda em Psicologia Clínica pela Puc-Rio reconhece o significado do seu corpo preto em um espaço não desenhado para existências como a sua, porém resiste e age com alegria e amorosidade. Especialista em Psicologia e relações raciais, pois precisou aprofundar os vínculos com os seus ancestrais através do conhecimento que lhe foi negado ao longo de sua formação, mas não a impediu de se re-conectar com a força de suas raízes. Co-fundadora do PapoPreta: Saúde e bem-estar da mulher negra, pois, segundo ela, o mundo precisava saber que existe uma Psicologia que pensa a partir de referência preta, não a partir do espelho hegemônico, esse foi quebrado e quando insistir em reaparecer será quebrado de novo. Como ela mesma diz, o mundo que lute, eu existo!




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